"A saudade não está na distância das coisas, mas numa súbita fractura de nós, num quebrar de alma em que todas as coisas se afundam" - Vergílio Ferreira
São seis da manhã e já estou a morrer de cansaço. Acordei há duas horas e há já uma que estou a trabalhar. O sol começa a conferir um tom mais claro ao horizonte e os seus primeiros raios começam a tocar a minha pele. Os meus músculos doem-me como se estivesse a tentar segurar-me a uma pedra para não cair num precipício sem fim. Sei que é cedo e que ainda tenho muitas de Sol e de trabalho pela frente mas, ao pensar nos dois anjos que deixei no meu país, na minha casa, sei que não posso desistir. Os meus meninos...
Ainda me lembro (esse momento nunca saiu da minha memória) do dia em que fui obrigado a deixá-los, a abandonar a minha vida e tudo o que mais amo neste mundo, para vir para aqui, trabalhar de Sol a Sol, à procura de um pouco mais de dignidade para os meus filhos possam crescer e ser felizes.
O que mais me custa é isso mesmo. Comparada com a ideia de não conseguir proporcionar uma vida boa aos meus filhos, a dor que tenho nas costas não é nada! A maior dor que já senti em toda a minha existência foi a que as lágrimas dos meus filhos me fizeram quando parti. Ouvi-los a dizer, entre soluços, "Amo-te muito, papá" e vê-los a acenar aquele que foi o nosso último adeus, no meio de lágrimas e de abraços da mãe; isso foi, realmente, devastador. Saber que, quando voltar, eles já estarão crescidos e que perdi uma grande parte das suas vidas é o que mais me atormenta.
São seis e cinco, parece que o tempo está parado, parado há cinco anos e eu, cada vez mais perto, de voltar a ver o Sol. Cada passo que dou tem o peso do mundo e mal vejo o dia em que voltarei a sentir a minha vida segura nos meus braços.
Já começaram a gritar comigo por ter parado. Não consigo, doem-me os braços, os pés, as pernas... doí-me a alma! Mas tenho de persistir e sei que irei conseguir, pois o amanhã chegará e eu poderei, finalmente, respirar.
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